MAL-BEM-ESTAR na civilização
Existe um famoso texto de Freud que se chama “mal-estar na civilização”. Quase todo mundo, pelo menos, já ouviu falar dessa expressão. Hoje, viemos aqui para brincar um pouco com essa ideia. Mas só de rebeldia e brincadeira mesmo, porque afinal, quem ousaria questionar Freud?
Isso aqui é apenas um jogo de palavras. Uma forma lúdica de convidar os modern runners a falarem sobre assuntos mais sérios.
Topam conversar sobre comunidades e sua forma curiosa de operar no mundo?
Pensem comigo… Vivendo nossa modernidade digital, fica muito fácil pensar que seguidores compartilham atenção, certo? Mas será que fica claro perceber que comunidades compartilham algo de si?
Pera, vamos começar do começo… A origem da palavra vem do latim communitas:
cum = junto
munus = obrigação, dever, dádiva, troca
Car@l%o, quer dizer que em pleno ano de 2026 eu ainda tenho obrigações e deveres?
Não funciona só do jeito que eu quero, quando eu quero e enquanto eu quero?
Pois é, sinto te dizer que não. Definitivamente não. Porque viver em comunidade ~ a essência da existência humana ~ que é um ser que existe em relação, exige renúncia, negociação, regras, responsabilidades. Porque para viver junto e compartilhar uma forma de existir em comum, é preciso que as pessoas assumam algo umas pelas outras. Que abram mão de algo em si em nome de um nós.
Nossa cultura passou a valorizar muito a ideia de liberdade e autonomia individual. Isso construiu uma nova lógica de existência que muitas vezes nos leva a agir da seguinte forma:
“saio daqui quando algo deixa de me servir”
“removo essa pessoa quando ela deixa de me interessar”
“se não tenho protagonismo, não é interessante para mim permanecer”
Mas viver em comunidade não é apenas liberdade. É uma negociação contínua.
Por isso Freud falava sobre o mal-estar. Porque negociar constantemente causa mal-estar na gente. Sentimentos de frustração, controle de impulsos, renúncias, pactos. Não é simples e nem fácil.
Toda vida em comunidade acaba por criar pequenas e constantes frustrações. Portanto, não espere que o sentimento de pertencer te blinde de sentir essas frustrações. Porque viver em harmonia perfeita e absoluta é uma ilusão. E construir vínculos sólidos exige, antes de mais nada, investimento emocional.
Mas existe algo curioso acontecendo no outro lado dessa equação. Porque talvez o desconforto das pequenas renúncias seja justamente o preço de acessar algo que sozinhos dificilmente sustentamos por muito tempo. A sensação de ser esperado em algum lugar. De ser reconhecido. De perceber que alguém nota a sua ausência. De dividir esforço, histórias, silêncios e sentidos.
Curiosamente, aquilo que abrimos mão em pequenas doses (controle absoluto, protagonismo constante, autonomia irrestrita) muitas vezes retorna em forma de algo maior: apoio, reconhecimento, identidade compartilhada, memória coletiva e a sensação rara de não precisar sustentar tudo sozinho.
Talvez exista um certo bem-estar que não nasce da ausência de conflitos, mas da presença dos vínculos.
No nosso caso, tratando-se de uma comunidade de corrida, nossos pactos envolvem coisas como saber esperar o ritmo do grupo, abrir mão dos próprios desejos pessoais, considerar o tempo do outro, sustentar vínculos, participar, agir e colaborar para o bom funcionamento do grupo.
Faz algum tempo que estamos observando o fenômeno cultural da corrida sendo vivida como um esporte coletivo. Esse é um paradoxo interessante, pois diante das redes sociais, na verdade, tem sido cada vez mais um esporte individual para uma plateia particular, concordam?
Existe uma tendência crescente de mostrar números, rotas, ganhos de elevação e grandes superações pessoais. Mas depois ~ ou antes ~ muitos também querem correr em algum grupo da sua cidade ou região. Mas quantos deles realmente estão entendendo o que significa correr em grupo? Correr, literalmente, juntos.
Acredito que muito poucos. Por isso estamos aqui pra refletir.
A grande nova onda de formar comunidades nos confundiu muito. Empresas de todos os tipos de produtos e segmentos estão desesperadas correndo contra o tempo para formar a sua própria comunidade. Os influenciadores estão aflitos tentando saber como vão fazer para chamar seus seguidores de COMUNIDADE. Enfim, é a palavra do momento (e se você não ouviu o podcast Vibes em Análise, fica aqui a sugestão desse episódio).
Mas será que estamos realmente vivendo a era das comunidades ou ainda estamos apenas desesperados em busca de atenção e engajamento?
Quando pessoas passam a ser reduzidas apenas a métricas de alcance, algo da lógica comunitária se perde. Existe uma grande diferença escondida aí. Métricas tradicionais observam circulação, enquanto vínculos (que é a proposta de uma comunidade autêntica e real) observam permanência.
Já o alcance (palavra tão sedutora atualmente) mostra quem apenas passou por determinado lugar; enquanto o vínculo mostra quem decidiu permanecer.
Por isso, é importante lembrar que a atenção termina quando um conteúdo acaba; mas o vínculo continua influenciando o comportamento mesmo quando a experiência já não está acontecendo.
A diferença é abissal.
Não podemos confundir as coisas. Não podemos aplicar o conceito de comunidade em qualquer aglomerado ou junção de pessoas. Porque nem todo grupo de pessoas reunidas é uma comunidade.
Porque comunidade originalmente não significava “grupo de pessoas parecidas”. Significa pessoas unidas por algo compartilhado, que sentem: “eu reconheço minha forma de existir aqui.”
Enquanto um conteúdo pode gerar ótimo alcance, uma Cultura de Comunidade pode alterar: identidade, comportamento, hábitos, relações.
Mas aqui entra um ponto interessante: você pode observar uma comunidade de longe e ser um grande admirador. Isso, não necessariamente, faz você se sentir parte. E se você estiver presente mas for apenas como um espectador, provavelmente se sentirá distante e frustrado.
Justamente porque pertencer a uma comunidade implica fazer-se ali. Oferecer algo de si. Abrir espaço para o outro entrar. E essa, definitivamente, não é uma tarefa fácil. Especialmente falando de um mundo onde “quero criar raízes, sem jamais perder minha liberdade”.
Se eu vejo a comunidade como algo instrumental, que tem coisas a me oferecer, provavelmente não me sentirei parte dela. Agora, se eu vejo a comunidade como uma relação genuína entre sujeitos agentes, muito possivelmente criaria o meu lugar ali.
Porque vínculo é participação. E para participar, é preciso agir.
Antes que você pense que é preciso ser uma pessoa ativa ou extrovertida para pertencer a uma comunidade, calma… Pessoas são diferentes e não ocupam as mesmas funções nos grupos.
Agir não significa ser protagonista. Você pode apenas entender como as coisas operam e trazer a sua identidade para dentro do sistema. De forma autêntica e genuína consigo mesmo. Sem precisar alterar nada em si mesmo.
Você precisa sim fazer movimentos e estar à disposição, mas fique atento: se você tiver que fazer força demais para pertencer a uma comunidade, aí talvez já não seja o seu lugar mesmo. Os vínculos exigem algum tipo de trabalho, mas não necessariamente isso precisa ter um custo.
Viver junto exige pequenas renúncias, mas não significa que tenhamos que ser todos iguais. Se fosse assim, seria chato. Só precisamos abrir espaço para construir algo entre nós.
Seres humanos não apenas formam grupos; constroem formas de suportar a própria existência juntos. Comunidades não aparecem prontas esperando nossa chegada. Elas acontecem no espaço entre pessoas que escolhem permanecer, negociar, colaborar e compartilhar algo de si.
Se Freud falou sobre o mal-estar inevitável de viver juntos, talvez as comunidades nos lembrem também de algo menos explícito: existe um certo bem-estar que só nasce na presença do outro.
E talvez seja justamente isso: Você não encontra uma comunidade. Você a constrói. Você não consome uma comunidade. Você a sustenta.

